1/27/2012

Sobre a moda masculina e o homem masculino


As semanas de moda masculina são sempre menores, menos impressionantes e com doses homeopáticas de glamour. Mas o que elas nos oferecem sempre é uma percepção de quem é o homem de hoje, muito além de páginas de revistas e vitrines de shoppings.

No início da década passada, houve uma popularização do chamado "metrossexual" - um termo criado anos antes para definir a estética e hábitos que surgiam então na moda masculina. O metrossexual se referia até então, ao homem que assumia sua vaidade e o seu lado feminino - pelo menos na frente do espelho. Surgiram novas preocupações no cotidiano do homem, como depilação, bronzeamento artificial e o incessante cuidado com a estética corporal.

Já no final dessa mesma década, no início de 2010, uma nova direção surgiu: meninos do mundo todo interessados em uma imagem masculina - opção manifestada de forma muito clara nas preferências atuais de cortes de cabelo, barbas, bigodes e esteriótipos clássicos dos anos 40. Talvez uma reação à imagem de David Beckham, que ficou por anos fixada em nossas mentes, ou até mesmo porque em tempos de incertezas sociais e culturais as definições de gêneros ou diferenças sexuais tendem a ser mais reforçadas. Basta pensar nos efeitos das crises econômicas dos anos 2000, em como a estrutura de trabalho está mudando, em como as pessoas se tornaram mais móveis e deslocáveis e os ambientes de trabalho perderam sua rigidez e forma tradicional.

Antes de tudo isso, a década que entramos parece ser finalmente a celebração do individualismo dos homens no que diz respeito a como eles se vestem. Algumas pessoas podem dizer que esta valorização do individual é baseada em arquétipos de masculinidade, como soldados, lenhadores e trabalhadores braçais. Talvez seja verdade! - Alguém nesse exato momento pensou em "Village People"? Sim, a moda também sofre os seus riscos. Mas penso que só agora é que os homens realmente parecem ter auto confiança para assumir riscos em sua estética e experimentar o novo sem ter qualquer vergonha.

Se observarmos cuidadosamente as coleções de primavera/verão 2012 apresentadas em Junho do ano passado e até mesmo o uso de materiais e texturas vistos mais recentemente nas coleções de outono/inverno 2013, é possível acreditar que o homem ideal está em um caminho diferente do visto e até esperado anteriormente. A experimentação de idéias que eles nunca se atreveram por um longo tempo, começa a ser encarada mais facilmente, como investir mais na cartela de cores, estar focado em itens exclusivos e principalmente, colecionáveis e ser mais consciente do que é Moda e para que ela serve. (Diversão, talvez?)

A crítica de moda do "New York Times", Cathy Horyn diz "o homem atual ideal é um homem individual". Em um de seus recentes artigos do jornal, ela deixa clara a sua opinião:

"As melhores marcas tendem a reconhecer que o homem tem uma visão muito ampla da moda hoje em dia. Houve um consumidor de moda sedento nos anos 80 e início dos anos 90, que era muito provavelmente gay e que tinha um interesse muito grande em ser expressivo através de suas roupas ou por meio delas. Haviam também estilistas como Versace, Dolce & Gabbana, Thierry Mugler e Jean Paul Gaultier que preenchiam essa demanda."

“Entretanto acho que agora muitos homens homossexuais, heterossexuais – não importa – possuem um conhecimento muito bom sobre moda e de quem a está criando. Eles querem estar confortáveis, eles vivem em uma área urbana, eles precisam estar arrumados para o trabalho, mas eles também podem usar jeans e camiseta na maior parte do tempo ou até mesmo shorts, um item abominado pelo high street até então. Eles querem uma bolsa de qualidade, eles querem um bom caimento, bons sapatos”, concluiu Horyn em sua última análise das semanas de moda masculina.

É um fato que os consumidores do sexo masculino estão mais seletivos e mais conscientes no que diz respeito a sua escolha de compra. Pode-se perceber que alguns dos melhores designers de moda masculina atual (como Lucas Ossndrijver da Lanvin, Paul Smith, Junya Watanabe e Tomas Maier da Bottega Veneta), estão apresentando roupas na passarela que não se parecem com roupas de designer. Hoje se vê bons itens que podem ser usados de modo independente: peças bem construídas, precisas e por que não, definitivas. Talvez moda - no mais puro sentido da palavra - não seja mais tão interessante assim, abrindo espaço para o que os homens sempre quiseram: Estilo.

Os criativos da indústria da moda já sabem que seus clientes estão mais auto confiantes e que a escolha deles vai ser sempre a que lhes cair melhor.(Para aqueles que realmente amam algo ditado, montado e chamativo, não se preocupem, Prada, Balmain e Versace estão aí para nos divertir.)

Parece que o homem será capaz de continuar re-inventando seu limitado guarda-roupa e por que não, romantizando sobre quem ele quer ser. Materiais, cores, acessórios e os aclamados truques de styling vão ser os grandes responsáveis por expressar cuidadosamento este individualismo.

Estamos cada vez mais longe das restrições enquanto uniforme da moda masculina. E acredito que mesmo que um terno seja a escolha final, será com certeza um terno muito bem escolhido, afinal.
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