6/17/2007

Nessa Cultura, os bancos não lucram



O economista indiano Muhammad Yunus (foto acima) ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2006 por conceder empréstimos à população da incrivelmente pobre zona rural de Bangladesh. Por meio do Grameen Bank, instituição que fundou há três décadas, Yunus já emprestou o equivalente a 5,7 bilhões de dólares para 6,6 milhões de pessoas. O baixíssimo índice de calote de seu banco transformou Bangladesh numa espécie de Shangri-lá do financiamento -- e popularizou uma idéia que, embora sem fundamentos econômicos muito sólidos, disseminou-se rapidamente pelo mundo das finanças: o mito do pobre bom pagador. De acordo com os defensores dessa tese, quanto menor a renda do devedor, maior é sua urgência moral de não sujar o nome na praça. E, por isso, ele faria um esforço sobrenatural para pagar em dia. A beleza da tese é indiscutível. Na prática, porém, os bancos brasileiros estão descobrindo uma realidade bastante diferente. Nos últimos anos, as maiores instituições financeiras do país decidiram investir agressivamente na conquista da população de baixa renda. E os resultados obtidos até hoje permitem chegar a uma conclusão: emprestar a essa parcela do mercado é uma tarefa muito mais complexa do que o exemplo de Yunus pode fazer supor. "A verdade é que o pobre paga primeiro a venda da esquina, depois a farmácia e o amigo", diz Odair Rebelato, diretor executivo do Bradesco. "Só depois ele paga o que deve para o banco."
Com a estabilidade econômica da última década e as perspectivas de uma menor taxa básica de juro, os bancões foram forçados a aumentar sua carteira de empréstimos e a paparicar os clientes mais rentáveis. Esse movimento se deu basicamente em duas direções. Primeiro, todos desenvolveram áreas exclusivas para os correntistas de alta renda. Bradesco Prime, Itaú Personnalité e Uniclass são algumas das marcas criadas para conquistar e manter essa clientela, oferecendo mimos como tarifas menores e gerentes exclusivos. Esse é, porém, um jogo de rouba-monte, em que cada banco luta para pegar clientes do outro. As grandes perspectivas de crescimento estavam na segunda frente de ataque, a baixa renda, até então praticamente ignorada pelos grandes bancos. Em 2002, o Bradesco comprou a financeira Finasa e arrematou, dois anos depois, a Zogbi. O HSBC adquiriu a Losango em 2003. No ano seguinte, o Itaú decidiu criar a Taií, sua financeira. Todas essas apostas foram feitas num cenário de grande otimismo. Nos primeiros anos do governo Lula, a renda na classe C subia, o que gerou uma explosão no crédito. Hoje, percebe-se o exagero desse otimismo todo. O índice de calotes atingiu patamares insuportáveis, muito superiores aos previstos nos planos que justificaram os investimentos. Segundo um levantamento da consultoria Accenture, em janeiro de 2005, 10% da carteira total do sistema financeiro estava com atrasos acima de 90 dias. Em janeiro de 2007, o índice tinha subido para 15%.


O desafio da baixa renda
Por que os bancos estão enfrentando dificuldades para lucrar nesse segmento
1 - Mercado competitivoÉ possível encontrar até dez lojas de financeiras diferentes em uma mesma rua, e a concorrência força os bancos a baixar os juros, reduzindo a rentabilidade
2 - Excesso de ousadiaPara crescer, os bancos emprestam para clientes de maior risco, que não têm como dar garantias de pagamento. O resultado é o aumento da inadimplência
3 - Impacto do crédito consignadoA expansão do consignado, que permite o desconto dos empréstimos direto do salário, aumenta os calotes em outros tipos de empréstimo
4 - A renda não cresceuA renda da população não cresceu na mesma proporção que a expansão do crédito. O excesso de dívidas e a falta de dinheiro aumentaram, de novo, a inadimplência


BASTA VISITAR OS GRANDES centros urbanos, como a região da 25 de Março, a mais popular rua de São Paulo, para entender a origem dos maus resultados. A concorrência entre os bancos é brutal. Em algumas ruas, é possível ver dez financeiras lado a lado. E, para garantir participação de mercado, os bancos tornaram-se menos criteriosos na hora de emprestar. Assim como no modelo criado por Muhammad Yunus, portanto, as financeiras dos bancos vinham concedendo empréstimos ao cliente de baixa renda sem exigir garantia alguma. Bastava a apresentação da identidade e do comprovante de residência para que os recursos fossem liberados. O que se viu em seguida foi o que alguns especialistas apelidaram de farra do crédito.
As conseqüências foram espetaculares para os bancos que saíram na frente nesse segmento, como BMG, Banco do Brasil e BMC. Foram, por outro lado, nefastas para as financeiras. O consignado atraiu os bons pagadores e deixou para as financeiras os clientes de maior risco, que oferecem menos garantias.
A mudança no cenário forçou os bancos a transformar sua estratégia. Tome-se o exemplo da financeira Taií, do Itaú. Seus executivos previam chegar a 2007 com 1 105 lojas, mas a alta da inadimplência fez com que o banco colocasse o pé no freio. O número de lojas não passou de 853. Oficialmente, o Itaú informa que as taxas de expansão seguem de acordo com os planos iniciais e que os prejuízos vão acabar no fim do ano. "O mercado de crédito pessoal tem um risco de crédito maior", diz Silvio de Carvalho, diretor da controladoria do banco. A taxa de inadimplência na Taií chegou a 15,8% no primeiro trimestre do ano, enquanto o mesmo índice no grupo Itaú foi 5,2%.
Além das mudanças na estratégia, os bancos estão revisando seus modelos de financiamento. O Bradesco impôs limites para empréstimos a clientes que já estejam com 30% da renda comprometida com outros financiamentos. O banco Panamericano passou a exigir comprovação de renda e vínculo empregatício de pelo menos um ano. O Unibanco decidiu concentrar seus esforços no financiamento a clientes que já têm histórico positivo na instituição. "Antes, para cada 100 pedidos de crédito, liberávamos 45. Hoje, aprovamos apenas dez", diz Raphael Carvalho, diretor da Fininvest, financeira do Unibanco. Apesar das dificuldades, não há indícios de que os grandes estejam desistindo de conquistar a baixa renda.


Com essa grande disponibilidade de credito no mercado, em um momento a demanda aumenta, pois a população possui dinheiro (emprestado) para consumir o que bem entende. Porem, chega a um certo ponto onde as pessoas não podem mais comprar, pois já estão com a dívida no banco (que sobe a cada dia) ou estão com o nome "na lista negra", e os seus carnês daquelas lojas que tem "dedicação total á você" dentro das gavetas; o que faz desacelerar a economia no país, assim os bancos acham que vão lucrar mais rápido, porem, acabam stagnando a economia do país e ficam sem receber a quantidade de dinheiro emprestada.


Ou seja, atrasa a economia, e ninguem sai ganhando nessa. o País só perde por culpa da Elite de novamente.. Fazer o que? é o nosso Brasil.
Por Denise Carvalho e Daniella Camargos
fonte: mercadocompetitivo
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